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domingo, 21 de setembro de 2014

20 e 21/09/2014 - Audax 600 Km - Florianópolis - SC

Chegou o momento, é hora de finalizar a sequência de desafios. Depois de iniciar a série em março desse ano em Joinville com o Audax 200 Km, fiz o Audax 300 Km e o 400 Km em Florianópolis. O Audax 600 Km é o último desafio para um randonneur (ciclista de longa distância) obter o título de Super Randonneur. Lógico que pretendo fazer o Audax 1000 Km no próximo mês, mas como dizem: "é só para cumprir tabela". Novamente o Maneca foi escalado para fazer o apoio. Por motivos de trabalhos, tivemos que sair de Joinville ás 17:30 hs de sexta-feira.


Por conta disso chegamos tarde e não participamos do congresso técnico. Por sorte deixei uma autorização para o Claudinho e a Marlene, primos do Maneca que moram em Florianópolis, retirarem o kit da prova. Não querendo abusar, ficamos instalados na casa deles e ainda fizeram uma panelada de cachorro quente que estava uma delícia.


Eu e o Maneca ficamos acomodados na área de festa, arrumei a bugiganga que iria precisar no outro dia, conversamos um pouco entre nós e com os amigos nas redes sociais.


Resolvemos dormir pois no sábado a largada seria as 5:00 hs. Acordamos as 3:45 hs, fizemos um café rápido e chegamos no Della Bikes com tempo de sobra para montar a bike, separar a alimentação e fazer a inspeção. Lá encontrei o Leonardo que veio de Itumbiara - GO, a gente já havia feito um trecho do Audax 400 km e agora combinamos de fazer uma parceria para completar o Audax 600 km. Nos encontramos no momento da largada e se juntaram a nós o Fabiano de Urussanga - SC e o Paulinho, um senhor de 65 anos que veio de Curitiba - PR e pedala muito.

Foto: Rafaella Della Giustina



Pedalamos pela beira mar norte e atravessamos a ponte rumo ao continente. Dessa vez o trajeto mudou um pouco e seguimos por outro caminho pois nosso primeiro desafio era subir a serrinha até São Pedro de Alcântara. Uma região muito bonita de belas paisagens que vale a pena conhecer.
















Preparei uma colinha dos PC's para ter acesso rápido a informação. E foi muito útil, pretendo fazer isso no Audax 1000 km.


Com 57 km pedalados chegamos no PC 1 as 7:40 hs em Santo Amaro da Imperatriz, mais precisamente na padaria do Anésio, outro randonneur que hoje abriu mão de pedalar para dar apoio aos amigos. Aqui a parada foi rápida e logo pegamos a estrada de novo.





Na rodovia uma leve descida e um suave vento a favor fazia a bike atingir a marca dos 30 km/h com facilidade, mas o pessoal parecia que estava muito cansado e não queria fazer força. Tivemos que fazer uma parada rápida para uma troca de câmara na bike do Fabiano.




A previsão do tempo dizia que hoje seria um dia nublado na grande Florianópolis, mas eu não estava enxergando as nuvens. Entramos na BR-101 onde o bagulho fluiu, mesmo com o sol castigando. Passamos o trecho de Biguaçu e Governador Celso Ramos e paramos em uma lanchonete para comprar água e comer alguma coisa.








Encontramos um paulista que resolveu fazer a prova de chinelo, mas não era qualquer chinelo não, era um par de  Havaianas e o Fabiano estava calçando chuteiras de trava alta. Cada um escolhe como pagar os seus pecados.


Logo a gente já estava em Tijucas, Porto Belo, Itapema e em Balneário Camboriú resolvemos fazer nosso almoço. Optamos pelo Subway já que não tinha ninguém e o ambiente era climatizado, tudo o que a gente queria naquele momento.









Antes de sair ajudei o Paulinho a fazer uma limpeza no câmbio dianteiro, pois as marchas não estavam trocando devido a areia. Assim que pegamos a estrada novamente furou o pneu dianteiro da bike do Paulinho e fizemos a troca bem rápido. Mais alguns quilômetros a frente o pneu estava vazio de novo. Olhei com cuidado o pneu e achei um "pelinho" de arame agarrado.




Seguimos viagem e comecei a sentir um desconforto no joelho direito, não dei muita bola pois isso é normal, pensei. Nosso próximo destino era Penha onde era necessário pegar um comprovante em uma padaria.







Encontrei meu apoio no PC 2 todo encalorado e bem descansado por sinal. Acho que tava pegando uma praia. Era 14:25 hs e já pedalamos 186 km.



 

Passamos pela rodovia interpraias que liga os municípios de Penha, Balneário Piçarras e Barra Velha, depois pegamos novamente a BR-101 rumo a BR-280. Nesse momento um vento nordeste atrapalhou um pouco o ritmo.






Nosso próximo destino era Guaramirim e precisava pegar um comprovante no posto Shell antes de seguir para Massaranduba. Ao entrar na BR-280 o vento se tornou nosso aliado, mas nossa equipe achou melhor ir na maciota do que aproveitar a ajuda da natureza. Chegamos lá e claro que o Maneca já estava me aguardando.



Esse é o PC 3 as 17:35 hs e 260 km. Aqui fiquei sabendo que o Eleonésio estava desistindo, o que me deixou um pouco pra baixo pois sei de toda a dedicação que ele teve para chegar até aqui. Mas temos que conhecer nossos limites, eu também já adiei alguns objetivos, pois saberia que se continuasse poderia ser pior.


Antes de sair tive que me lembrar de levar tudo o que eu precisaria para iniciar o dia de amanhã pois o Maneca iria dormir em casa e só estaria presente no PC 6 em São José. Como esqueci meu corta vento tive que levar o corta vento de emergência que ganhei do Maneca. Seguimos sentido Massaranduba e anoiteceu rápido. Poucos quilômetros de pedal e alguns carros começaram a nos parar no acostamento avisando sobre um acidente com um ciclista. Bem, se tem alguém com ele provavelmente entrarão em contato com a organização que tomará as devidas providências. Depois ficamos sabendo que foi só um tombo e ele foi encaminhado para o hospital. O pedal continuou agora com um certo receio. De longe era possível ver os clarões da trovoada que se aproximava. Começaram a cair alguns pingos e parei para colocar o corta vento de emergência do Maneca. De repente caiu uma chuva torrencial acompanhada de muitos raios e vento. Por sorte estávamos ao lado de uma cancha de bocha onde nos abrigamos.






Todos os ciclistas que passavam começaram a parar ali, inclusive os motoristas, pois não dava para enxergar nada em meio ao temporal. Nesse momento acabou a bateria do meu celular e fiquei sem comunicação com a família e com o Maneca.


Ficamos parados ali por uns 15 ou 20 minutos, assim que a trovoada passou e a chuva aliviou um pouco seguimos para subir a serrinha e chegar em Blumenau no PC 4 com 315 km as 21:45 hs. E pensar que agora que passamos da metade da prova. Esse sem dúvida foi o melhor PC, a estrutura estava ótima: cachorro quente, café, leite, água e banheiros a disposição. Nesse momento se cogitou em dormir por ali em alguma pousada ou hotel. Eu e o Paulinho decidimos que a gente seguiria até o hotel em Balneário Camboriú e apesar do cansaço todos acabaram concordando.




O caminho a seguir agora era através de Gaspar. Foi um trecho muito chato, de acostamento ruim (quando tinha). De longe era possível ver luzes que eram da própria rodovia e nos enganavam achando que já estávamos chegando. Quando a gente pensava que estava chegando na BR-101 era apenas a cidade de Ilhota. Além da péssima rodovia e do cansaço, meu joelho direito começou a doer muito. Aqui teve poucas paradas e não teve fotos, a gente só queria saber de chegar no hotel. Ao avistar a BR-101 deu um ânimo pois faltavam poucos quilômetros para o hotel que era o PC 5 e já rodamos 380 km. Chegamos ás 1:35 hs, um buffet de sopas nos aguardava mas eu estava bem alimentado, só queria tomar um banho e dormir. Acordamos as 4:45 hs e levei um susto com o Maneca dentro do quarto. Ele estava preocupado com a falta de comunicação e acho que nem dormiu.


Tomamos um café rápido, a saída tinha que ser até as 6:00 hs e conseguimos sair as 5:50 hs. Eu já estava todo ardido do sol de ontem e hoje a previsão era de mais sol, tudo bem, melhor do que chuva. Mas tenho que caprichar melhor no protetor solar. As 7:00 hs fizemos mais uma parada para comilança.



Uma forte neblina pairava sobre a estrada, mas logo o sol marcou presença. Meu joelho não parava de doer e por conta disso comecei a me alimentar mal e não me hidratava como antes. Senti tonturas, fraqueza e o Paulinho me falou que eu estava muito pálido. Pronto, estava com hipoglicemia. Resolvemos parar para amenizar o problema. Na hora de parar eu soltei o pé direito do pedal e pendi a bike para o lado esquerdo. Tombo. Agora eu estava com o joelho direito doendo e o esquerdo ralado. Muito bom isso. Seguimos com o pedal e combinamos de parar na próximo comércio que a gente achava. Compramos uma Coca-Cola o que fez o nível de açúcar no sangue subir rapidinho.


Chegamos no PC 6 as 10:20 hs com 455 km. Eu aproveitei e já almocei por ali, pois não queria arriscar e fazer uma parada extra para o almoço. Novamente tive que pegar tudo o que eu necessitava para terminar o desafio, pois se tudo ocorresse bem só encontraria o Maneca na chegada.



Mais um momento de tristeza agora ao saber que o Ronnie estava desistindo. Esse cara é muito forte no pedal e quando alguém desiste a essa altura do campeonato é que o bagulho tá nervoso. Alguns pensamentos malditos começam a passar pela cabeça como:"se ele desistiu eu também posso" ou "eu também tenho dores, vou desistir". Mas ainda são dores suportáveis, tenho certeza que quem não consegue mais continuar é porque chegou ao extremo. Agora precisamos passar por São José e entrar na ilha.


Mas antes que isso acontecesse furou o pneu do Fabiano ao subir no meio fio. Fizemos a troca antes de subir a ponte.



Seguimos para o sul da ilha onde fomos recepcionados por um forte vento contra. O pessoal resolveu parar para o almoço, eu não conseguia comer mais nada. Continuamos nossa penitência. O nível do vento contra que estou falando é tipo: ter que pedalar morro abaixo. Depois de gastar muita energia chegamos no Balneário dos Açores, sul da ilha, onde estava o PC 7 e chegamos as 13:30 hs com 505 km. Faltavam menos de 100 km para completarmos o desafio.


Na volta, para a nossa sorte, o vento continuou. Agora estava a favor e a gente subia morro a 30 km/h, no plano a velocidade chegava a 45 km/h. Tava muito bom até chegar na Lagoa da Conceição onde o trânsito intenso e os morros quebraram nosso ritmo. No Rio Vermelho também era pau na máquina e meu joelho começou a inchar. Inchou tanto que não sentia mais dores, estava adormecido. Chegamos no Ingleses e subimos mais um morro que dava acesso a Cachoeira do Bom Jesus.






No PC 8 eram 16:50 hs quando carimbamos nosso passaporte, até aqui foram 560 km. Saímos com a informação que teria mais um PC extra em Jurerê, eu não sabia muito bem dessa informação pois não participei do congresso técnico, mas quem participou também não sabia e por via das dúvidas deveríamos comprovar nossa passagem por lá.



Assim que saímos desse PC o pneu do Fabiano furou. Colocamos outra câmara e furou de novo. Analisamos minunciosamente o pneu até encontrarmos um fiozinho de arame. Trocamos novamente a câmara com pressa e a danada não enchia. Fomos verificar ela tinha ficado presa entre o pneu e o aro e fez dois furinhos pequenos. Maldição, estavam todos preocupados e afobados e então com mais calma trocamos a câmara de novo, agora para não furar mais. Acho que perdemos mais de meia hora tentando resolver esse problema.


Agora a parada ficou séria, temos que recuperar o tempo perdido, meu joelho não doía mais, só estava do tamanho de um pão caseiro. A noite caiu novamente e chegamos em Jurerê. Pergunta aqui, pergunta ali e nos desencontramos. Mas logo nos reunimos novamente no posto onde era preciso comprovar a passagem.


Esse foi o PC 9, saímos ás 19:00 hs e faltavam 15 quilômetros para a chegada. Nesse momento o cansaço foi esquecido, junto com todas as outras dores. Os últimos morrinhos tentavam desanimar a nossa chegada. Avistamos a última passarela, nessa ainda me desequilibrei e bati com o braço nas proteções de ferro. Não teve foto na passarela, a vontade de chegar era maior. As 19:55 hs chegamos no nosso destino e completamos o desafio com 38:55 hs e 603 km de pedaladas.


O Maneca já veio me abraçar e parabenizar pelo feito, ele estava muito preocupado. Fizemos todas as formalidades e depois a felicidade tomou conta de todos.





Acabado


Para mim essa conquista foi a realização de um sonho, pois quando fiz pela primeira vez um Audax 200 km em 2012 cheguei morto e achava impossível um dia eu conseguir fazer um Audax 300 km, quem dera um dia fazer a série completa. Mas persisti, estudei, troquei ideias com os mais experientes e treinei. Treinei principalmente a parte psicológica e corrigi a alimentação errada que eu fazia durante um pedal de longa distância. Hoje posso pedalar durante quilômetros sem precisar parar para comer.

Dá uma espiada como ficou o joelho direito.
Muitas pessoas fizeram parte dessa conquista. Meus pais que além do apoio moral ainda me ajudaram com as despesas. Meus amigos sempre dando palavras de incentivo. Ao trio que me fez companhia e foram parceiros pedalando junto comigo na alegria e na tristeza: Leonardo, Fabiano e Paulo. Especialmente: ao Flávio que me ajudou muito no Audax 300 km que eu quase não completei; a Talita e Cabelo que estavam presentes no apoio dos desafios anteriores; a Marlene e Claudinho que foram pegar meu kit para participar da prova e ainda cederam a casa deles para passarmos a noite, fazendo a gente se sentir em casa; e claro meu principal apoiador Maneca que já completou sua série esse ano, mas fez questão de participar dos meus brevet´s, disponibilizando seu carro e seu tempo para tudo ficar menos difícil para o meu lado. Muito obrigado a todos. Vou ficar de molho e saber o que aconteceu com o meu joelho e que venha o Audax 1000 Km.


Agora esses dois super randonneurs tem que descansar. Abraços.


Confira a pedalada completa no Garmin:


Confira o primeiro dia no Strava:

Confira o segundo dia no Strava: